Ipece aponta os pilares da economia cearense para as próximas décadas

20 de janeiro de 2026 - 11:57

A expansão da infraestrutura digital apoiada em fontes renováveis de energia tende a consolidar-se como um dos pilares estruturantes da economia cearense nas próximas décadas. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), instituído pela Medida Provisória nº 1.318/2025, já é realidade e fornece um arcabouço institucional relevante, mas seu sucesso dependerá da capacidade de articulação entre os diferentes níveis de governo, o setor privado e as instituições de planejamento.

Para o Ceará, a consolidação como hub regional de data centers sustentáveis representa não apenas uma resposta às transformações da economia global, mas uma oportunidade concreta de alavancar sua vocação energética em direção a um novo patamar. O Estado desponta como um território posicionado para absorver parte relevante dos investimentos. O Ceará possui participação expressiva de fontes eólica e solar em sua matriz elétrica, ampla carteira de projetos em desenvolvimento e experiência institucional na atração e licenciamento de grandes empreendimentos energéticos.

Além disso, a localização geográfica do litoral cearense favorece a conexão com cabos submarinos de dados e rotas internacionais de telecomunicações, fator cada vez mais valorizado por operadores globais de infraestrutura digital. A análise está na nova edição do Farol da Economia Cearense (Nº 04 – 2025) lançada pela Diretoria de Estudos de Gestão Pública (Digep) do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Cear (Ipece). O trabalho traz um capítulo sobre o assunto: “energias renováveis, infraestrutura digital e o Redata: implicações no contexto da expansão dos data centers”.

De acordo com o professor José Fábio Montenegro, titular da Digep e responsável pela elaboração do estudo, a transformação digital da economia global tem ampliado de forma significativa a demanda por infraestrutura de processamento, armazenamento e transmissão de dados. Data centers passaram a ocupar posição central na organização produtiva contemporânea, funcionando como suporte físico de atividades cada vez mais intensivas em informação, como computação em nuvem, inteligência artificial e plataformas digitais.

Esse movimento tem implicações diretas sobre políticas industriais, energéticas e territoriais, sobretudo em países que dispõem de matriz elétrica relativamente limpa e evidente capacidade de expansão da oferta de energia renovável. No Brasil, esse contexto motivou a edição de uma Medida Provisória que institui o Redata. A medida sinaliza uma inflexão na estratégia federal ao reconhecer explicitamente a infraestrutura digital como vetor de desenvolvimento econômico.

Para estados como o Ceará, que já apresentam uma base consolidada de geração renovável e se inserem em rotas estratégicas de conectividade internacional – explica Fábio Montenegro -, o Redata abre uma janela concreta de oportunidades, mas também impõe desafios relevantes de planejamento e coordenação institucional. O Redata estabelece um conjunto de incentivos tributários voltados à redução do custo de implantação e expansão de data centers no território nacional, por meio da suspensão de tributos federais incidentes sobre a aquisição de bens e equipamentos destinados a esses empreendimentos.

 A exigência de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação no território nacional busca ampliar os encadeamentos produtivos e mitigar o risco de que os data centers se configurem apenas como enclaves tecnológicos com baixo impacto sobre o tecido econômico local e alto impacto eco social. A previsão de incentivos adicionais para empreendimentos localizados na região Nordeste reforça essa estratégia, reconhecendo o potencial regional de oferta de energia limpa e a necessidade de reduzir desigualdades espaciais na atração de investimentos intensivos em capital e tecnologia.

DEMANDA POR ELETRICIDADE

De acordo com Fábio Montenegro, a implementação do Redata ocorre em paralelo a um cenário de crescimento estrutural da demanda por eletricidade no país. O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), projeta que o consumo total de eletricidade no Brasil deverá crescer a uma taxa média anual de 3,3% ao longo da próxima década, no cenário de referência, podendo variar entre 2,7% e 5%, a depender do ritmo de crescimento econômico e da velocidade de difusão de novas tecnologias. Em termos absolutos, o consumo projetado para 2035 situa-se entre 872 TWh, em um cenário mais conservador, e 1.118 TWh, em um cenário de maior expansão.

Montenegro chama a atenção para um ponto que ele considera particularmente relevante: a crescente participação das chamadas cargas especiais, que incluem os data centers, a eletrificação de veículos e os projetos de hidrogênio verde por eletrólise. No cenário superior considerado pela EPE, essas cargas podem representar até 13% do consumo agregado nacional em 2035. Data centers operam de forma contínua, com consumo estável ao longo do dia, exigem elevado nível de confiabilidade no fornecimento e são particularmente sensíveis a interrupções e falhas de transmissão.

Essas especificidades impõem desafios adicionais ao sistema elétrico, tanto no que se refere à expansão da capacidade de geração quanto, especialmente, aos investimentos em transmissão e distribuição. Para concluir, ele observa que é nesse ambiente que se insere o anúncio de negociações para a instalação de pelo menos um data center no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) envolvendo a ByteDance, controladora da plataforma TikTok, em parceria com a Casa dos Ventos e Omnia. Informações indicam que o projeto possui dimensão bilionária, com investimento inicial estimado 200 bilhões de reais e vocação exportadora de serviços digitais.

PECÉM É ESTRATÉGICO

O consumo elétrico associado ao empreendimento o coloca entre as maiores cargas individuais do sistema elétrico regional. A escolha do Pecém reflete uma estratégia de integração entre oferta de energia renovável, infraestrutura logística e conectividade digital internacional. Do ponto de vista do desenvolvimento regional, a instalação de grandes data centers no Ceará representa uma oportunidade de diversificação econômica e de geração de empregos qualificados, ainda que em menor intensidade de mão de obra direta quando comparados a setores industriais tradicionais.

A convergência entre o Redata, as projeções do PDE 2035 e os investimentos anunciados em data centers no Pecém indica que o Ceará se encontra diante de uma oportunidade de desenvolvimento. O desafio central reside em assegurar que a implantação ocorra de forma sincronizada com a expansão da infraestrutura elétrica e com geração de valor econômico e tecnológico para o território – finaliza. Colaboraram para elaboração do trabalho o analista de políticas Públicas Bruno Maia Cavalcante e os assessores técnicos Tiago Emanuel Gomes dos Santos e Luiz Nivardo Melo Filho.  O estudo, na íntegra, já está disponível na página do Ipece.

Clique aqui e acesse o  Farol da Economia Cearense – Nº 04 / 2025.

Assessoria de Comunicação do Ipece
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